20/02/2016

a feira

Permita-me dar um conselho.

Se em algum momento da sua vida você precisar decidir onde morar, nunca escolha morar numa rua de feira livre. É sério!

Todo sábado é a mesma coisa, os feirantes que deveriam montar suas barracas às 6h da manhã, chegam a partir das 2h, nos dias que estou com sorte chegam às 3h, deste momento em diante não há mais silêncio.

Começando pela sinfonia dos caminhões, que quando chegam e manobram para se posicionarem no melhor lugar para descarregar, aceleram para frente e para trás, cada acelerada um rugido. A maioria deles bastante antigos e acredito que quando maior a idade, mais barulhento, com o agravante que quando estão em marcha ré tocam um alarme, para que ninguém fique atrás e haja um acidente e quando param totalmente, o barulho dos compressores esvaziando são verdadeiras buzinas.

O segundo ato, começa com o descarregamento das barracas e produtos, lonas são jogadas ao chão, gritos de pega a corda, segura o tabuleiro, vai vai vai, tá pesado, tá pesado, solta solta, e uma infinidade de conversas aos gritos, pois eles estão a todo vapor.

Então os caminhões acordam novamente para deixarem o local apenas para as barracas, e manobram, e aceleram, e alarme de marcha ré, buzina de compressor quando pisam no freio, até estacionarem em algum lugar próximo.

Agora é a minha vez de desempenhar o meu papel nessa ópera, na maioria das vezes eu me lembro e desço para tirar meu carro da garagem por volta de 3h30 e 4h e eles me odeiam por isso, pois muitas vezes eles têm que mudar várias coisas que já estavam no lugar para que eu possa sair com o carro, como eles sabem que só deveriam estar ali a partir das 6h eles não tem outra opção a não ser tirar tudo da frente para que eu passe.

As vezes eu me esqueço e vou mais tarde, aí é treta, porque as coisas estão muito avançadas e cansei de escutar, “agora já era” e já era mesmo, para não arrumar encrenca tive que me virar. Até que chegou o dia que eu sabia que não ia conseguir me virar e ia precisar do carro de qualquer jeito, argumentei que eles tinham que chegar às 6h e eram 4h50, eles responderam que eu sabia que todo sábado a essa hora já não dá mais pra passar, então disse que ia chamar a policia e muito a contra gosto me deixaram sair.

Eles me odeiam!

Agora quando eu sei que não posso esquecer de tirar o carro de jeito nenhum, dependendo eu nem guardo, já dorme na rua mesmo. Novamente eu que me vire se roubarem.

Chega a hora da montagem das barracas, os cavaletes de metal são arrastados pelo asfalto de um lado para o outro, martelos batem em vigas de madeira para se encaixarem, martelos batem pregos para da manutenção nos tabuleiros. Tudo isso acompanhado sempre de gritos para se comunicarem, pega a lona aê, encaixou? segura segura, não não puxa puxa. As caixas são empilhadas e desempilhadas inúmeras vezes.

Por volta das 6h30 da manhã acontece uma coisa que parece que é só pra me irritar, o barulho reduz drasticamente, está quase tudo montado e não tem mais motivo para gritarem.

São quase 8h da manhã então a gritaria agora é pra chamar a atenção do cliente, se todo o resto estivesse de acordo com as regras, juro que isso não me incomodaria, mas nesse momento eu já estou mais do que puto e todo o tipo de coisa ruim já me passou pela cabeça.

Ok, a gritaria permitida vai até 14h, só que não acabou a sinfonia dos caminhões começa novamente ao contrário, mas quem se importa são duas da tarde de sábado, eu deveria aproveitar o final de semana para fazer alguma coisa divertida, para me desestressar, pois é uma das coisas que eu gosto de fazer é gravar minhas músicas, não vou nem comentar como é tentar gravar de sábado pois eu já desisti.

Melhor mesmo é eu pegar minha família e ir passear, só se for de transporte público, porque eu esqueci de tirar o carro e os feirantes só terminam de carregar tudo e vão embora por volta das 16h30 e 17h, e se eu precisar do carro, será que agora eu posso sair? As vezes sim as vezes não, pois o lixo que fica pode me impedir de sair como já aconteceu várias vezes.

O jeito é esperar a limpeza pública, que quando tudo dá certo deixa a rua transitável as 18h agora sim eu posso sair definitivamente, mas a rua só fica totalmente limpa pro volta das 19h ou 20h.

Você deve estar se perguntando se eu não tentei fazer algo, pois bem, eu já liguei várias vezes para a policia citando o decreto No 48172 da legislação municipal de São Paulo, mais precisamente o artigo 5.

Art. 5º. As feiras livres obedecerão aos seguintes horários:

I - feiras comuns:

a) entre 6h e 7h30min - descarregamento dos equipamentos e mercadorias e montagem das bancas;

b) entre 7h30min e 13h30min - período de comercialização;

c) entre 13h30min e 15h - desmontagem das bancas e carregamento dos caminhões com os equipamentos e mercadorias;

E o que me disseram, que eu tinha que fazer uma denuncia no site da prefeitura, já fiz várias e de nada adiantou, liguei no psiu, e me falaram para fazer a denuncia na minha sub-prefeitura, e novamente de nada adiantou.

Imagine como eu fico feliz quando por algum motivo as pessoas próximas descobrem que eu moro nessa rua e elas dizem, nossa você mora na rua da feira, ela é tão boa, você não precisa nem ir de carro, deve ser muito bom né?

Infelizmente, muita gente não tem onde morar e alguns podem entender isso como um chilique de que não tem com o que se preocupar, e é por causa desse ponto de vista que eu sinto vergonha em todo sábado xingar os feirantes da minha rua. Sempre imaginando que se eles cumprissem as regras tudo seria melhor pra todos.