30/12/2015

Ensaio sobre a inteligência

 Capa de um livro, simulando as capas dos livros do Saramago

Capa - Ensaio sobre a inteligência

Por: Alex Nunes

Inteligente mesmo seria esperar um pouco mais para tentar falar sobre este tema, talvez alguns séculos ou até mesmo milênios, pois para que a discussão faça sentido, é necessário que exista experiência vivenciada sobre o proposto. Até o presente momento, na metade da segunda década do século XXI, a humanidade só conhece a teoria lógica da existência da inteligência. Os pouquíssimos que conseguiram viver de fato a experiência, não foram notados, pois nos faltou a própria para percebê-los.

Por tanto s√≥ posso discutir sobre a ideia que possu√≠mos hoje, e como pode ser que estejamos completamente enganados, isto acabaria se tornando uma quest√£o sem√Ęntica que me faria mudar o t√≠tulo deste texto para, Ensaio sobre o ensaio da intelig√™ncia.

Acredito que consegui deixar claro que penso que não sejamos seres realmente "inteligentes", isto posto, podemos avançar.

Haver√° um momento que o conhecimento ser√° igual para todos, inerente em todos os sentido, e as rela√ß√Ķes interpessoais ser√£o completamente diferentes com as quais estamos acostumados. Dizem que o conhecimento nos libertar√°, nos transformar√°.

Apenas por tentar imaginar algo do tipo, perco meu racioc√≠nio, ora comparando com o que penso ser a evolu√ß√£o que acreditam os esp√≠ritas, ora prevendo um cen√°rio de relacionamentos t√£o l√≥gicos e perfeitos que n√£o seremos nada mais que m√°quinas. E quando essas duas vertentes de pensamento se combinam, o vislumbre dessas possibilidades quase me deixa catat√īnico.

Voltemos ent√£o para essa nossa idealiza√ß√£o da intelig√™ncia, onde somos completamente fruto do nosso tempo e nossas escolhas s√£o completamente ego√≠stas. Sim! Todas as decis√Ķes que tomamos, em √ļltima inst√Ęncia s√£o para beneficio pr√≥prio e caso voc√™ perceba e aceite esse fato, n√£o se desespere, pois novamente √© uma quest√£o sem√Ęntica j√° que todos somos assim e ningu√©m se importa. Quando fazemos alguma coisa em prol de algu√©m, o retorno √© sempre a auto satisfa√ß√£o, nos casos em que existe o conhecimento da boa a√ß√£o pela parte beneficiada, teremos de volta o agradecimento e quando a bem feitoria for inc√≥gnita estaremos satisfeitos por saber que foi a coisa certa a se fazer. Se existe algum tipo de a√ß√£o onde voc√™ n√£o tem nenhum tipo de benef√≠cio ou satisfa√ß√£o, voc√™ n√£o faz, caso contr√°rio √© masoquismo e no masoquismo existe o prazer, portanto satisfa√ß√£o.

Logo, como n√£o fazemos nada que n√£o seja para nos satisfazer, ao longo da vida teremos muitas situa√ß√Ķes de conflito, que nos far√£o tomar decis√Ķes que n√£o ser√£o inteligentes do ponto de vista global do conv√≠vio social, algu√©m sempre sair√° perdendo, mesmo que seja do outro lado do mundo.

√Č t√£o lugar comum dizer, cada escolha uma ren√ļncia, que vou tratar a quest√£o pelo vi√©s da sele√ß√£o, que no final das contas dar√° no mesmo. Selecionar escolhas, decis√Ķes, atitudes, rea√ß√Ķes, de maneira que nos satisfa√ßa, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, com o melhor custo benef√≠cio tendo como base o conhecimento de que somos frutos do nosso tempo; √Č invariavelmente segregar!

Selecionamos e automaticamente segregamos, mesmo que sem querer, é inevitável! Sobre a parte que foi deixada de lado acabamos por não ter profundo conhecimento, restando apenas conjecturas de um ponto de vista distorcido e gerador de preconceitos.

Quanto menos contato com o que foi segregado mais o preconceito se instaura, conjecturas se toram certezas que n√£o contestamos, at√© chegar ao ponto onde de se tornarem verdades absolutas. Por que contestar verdades absolutas? Por serem incontest√°veis esquecemos que essas verdades foram criadas a partir de um determinado ponto de vista e quando nos deparamos com contestadores, √© ativado o mecanismo de defesa l√≥gica, o rep√ļdio.

Hoje esse tipo de rep√ļdio que √© comumente tratado como preconceito, e sua manifesta√ß√£o ou falta de questionamento sobre a possibilidade de haver outro ponto de vista, √© um sinal de que intelig√™ncia n√£o existe, existe a teoria sobre a intelig√™ncia por isso conseguimos assimilar quando fazemos algo que podemos adjetivar como inteligente, por√©m a percep√ß√£o da intelig√™ncia √© uma consequ√™ncia e n√£o exatamente uma qualidade que nos define, mesmo porque ego√≠smo e intelig√™ncia s√£o absolutamente incompat√≠veis.

Por mais que você questione ou aceite diversos pontos de vista, naturalmente haverá algum tipo seleção o afastará do conhecimento profundo sobre algo, assim gerando o preconceito, isso sempre será uma constante. Estaremos mais perto de sermos inteligentes quando existir a humildade em admitir que não existem verdades absolutas, aceitando que em algum ponto de vista qualquer coisa pode parecer normal.


Parecer√° normal n√£o, ser√° normal!

Isso me assusta um pouco pois me lembra novamente dos seres humanos máquinas, frios, capazes de calcular qualquer possibilidade ou quando não entender o contexto, não fazer nenhum pré-julgamento.

Outra vez, não consigo imaginar como seria o certo e o errado quando houver inteligência. Considerando os elementos atuais para esta equação, a inteligência tende ao bem estar coletivo, se elevada à extrema potência o resultado pode anular o sentido da existência como conhecemos. Por isso acho que faltam elementos na equação, então antes de atingir o resultado final, precisamos tentar entender o que conseguimos obter como melhores resultados com o que temos hoje, mesmo fazendo diversos exercícios existe um limite até onde eu consigo abstrair.

A identifica√ß√£o de qualquer fator que esteja fora das nossas sele√ß√Ķes, pode servir como alerta de que existe uma falta de conhecimento e a partir da√≠ admitir que podem existir outros pontos de vista.

Quero propor um exercício em que através da apresentação de diversos pontos de vista, enxerguemos com naturalidade uma situação de relacionamento, que acredito que se apresentada agora, seria fortemente repudiada pelo nosso preconceito.

Como ponto de partida gostaria de expor que o tema √©, consolida√ß√£o de um relacionamento iniciado a dist√Ęncia, mais especificamente do tipo em que as pessoas n√£o se conhecem fisicamente durante um per√≠odo, at√© que estejam seguras para o pr√≥ximo est√°gio.

Antes de a internet ser uma coisa popular, esse tipo de relacionamento acontecia por carta e com uma dist√Ęncia consider√°vel entre os envolvidos, certamente os familiares n√£o entendiam e repudiavam esse tipo de conduta. Como seria poss√≠vel se apaixonar por algu√©m que n√£o est√° perto, n√£o se conhece direito, n√£o se tem certeza da veracidade das afirma√ß√Ķes, como isso pode dar certo?

O conhecimento intimo do conte√ļdo das cartas era o suficiente para que aquelas pessoas tivessem um relacionamento, indo contra tudo e contra todos. As complica√ß√Ķes de dist√Ęncia existiam, mas n√£o eram o fator determinante para que n√£o desse certo. Pessoas eram capazes de se apaixonar por conte√ļdos presos pela tinta no papel.

Para que desse certo fisicamente, era necess√°rio apostar que tudo que fosse desconhecido e pudesse desagradar, seria suprimido por tudo que j√° se conhecia de bom. Traduzindo em mi√ļdos uma suspens√£o de preconceitos. Se desse errado significava que as conjecturas feitas sobre o que podia ser, n√£o atingiram as expectativas.

Durante muito tempo, as pessoas que se relacionavam dessa maneira sofriam rep√ļdios de preconceitos em maior ou menos escala, mas sempre sofriam. As coisas foram evoluindo e a minha gera√ß√£o vivenciou o inicio de relacionamentos online, as pessoas se conheciam em salas de bate-papo, depois continuavam se comunicando via mensagens de texto, at√© decidirem se encontrar. Novamente quem estava de fora sempre questionava, mas como voc√™ vai encontrar essa pessoa, voc√™ nem sabe quem ela √©, e se for um ladr√£o?

Eu pessoalmente conheço pessoas que se casaram e estão juntas há mais de 10 anos que se conheceram dessa maneira. Elas também foram vítimas de preconceito.

Depois vieram sites especializados em relacionamentos e hoje estamos na era dos aplicativos para smartphones que s√£o capazes de iniciar relacionamentos quando duas pessoas ‚Äúcurtem‚ÄĚ a foto uma da outra.

Nesse √ļltimo caso, eu mesmo exerci preconceito no inicio, mas rapidamente ao me lembrar dos casos anteriores consegui perceber que o aplicativo √© apenas a evolu√ß√£o para as pessoas se introduzirem, se o relacionamento vai dar certo ou n√£o, depende de quanto os envolvidos est√£o dispostos a aceitar ao outro, o que acaba sendo a base de qualquer relacionamento.


A aceitação é a antimatéria do preconceito.

Existem relatos de pessoas que iniciaram relacionamentos online com sistemas de ‚Äúintelig√™ncia artificial‚ÄĚ e se envolveram afetivamente sem saberem que estavam conversando com sistemas, maquinas. Eu n√£o consigo atestar a veracidade desses relatos, mas acredito que se n√£o foram verdadeiros agora, logo logo ser√£o, esses tipos de sistemas evoluir√£o e acho que algum dia eles ter√£o algo muito pr√≥ximo ao que chamamos de consci√™ncia, mesmo que demore centenas de anos.

Lembram que eu disse que somos todos egoístas, as pessoas projetam suas expectativas sobre conceitos, e são capazes de se apaixonar por eles, então basta que alguém apresente os conceitos certos que as lacunas serão preenchidas e romances podem surgir daí.

Isso d√° margem para que manipuladores consigam, vantagens sobre pessoas, que por conta de alguma vulnerabilidade acabam por agir de maneira descuidada. Existem v√°rios casos de pessoas que enviam dinheiro para seus pares rom√Ęnticos e no final das contas estavam sendo enganadas.

Em todos esses casos as pessoas se apaixonaram por suas proje√ß√Ķes sobre conceitos apresentados, conceitos esses que quando se concretizaram atendendo as expectativas se tornaram em relacionamentos, hoje aceitamos com naturalidade, mas que em algum momento sofreram preconceitos.

Se concordarmos com a afirmação acima poderemos prosseguir com o exercício, que precisará de um pouco mais de dedicação, para não julgarmos antes de conhecer os pontos de vista.

Existem diversos n√≠veis em que as pessoas conseguem se relacionar socialmente, algumas pessoas precisam fazer um grande esfor√ßo para sequer sair √† rua, e quando entendemos a condi√ß√£o dessas pessoas, nos solidarizamos, pois entendemos que a √ļnica maneira que elas poder√£o se socializar √© utilizando de recursos que tragam algum tipo de afirma√ß√£o, que gere seguran√ßa para tanto.

Algumas precisam fazer aula de dan√ßa, algumas precisam fazer psicoterapia, outras precisam se expor de maneira explicita, s√£o tantas as varia√ß√Ķes, que podemos afirmar que todos n√≥s temos ferramentas desse tipo em algum tipo de grada√ß√£o.

Existem homens presos em corpos de mulher, mulheres que nasceram no corpo com o gênero errado, homens que precisam apenas se vestirem como mulher para se sentirem completos.

Existem pessoas tão inseguras que nem sequer cogitam ter um relacionamento afetivo, e entender como essas pessoas sofrem nos sensibiliza, mas só ficamos solidários quando entendemos seu sofrimento. Caso contrário, fatalmente exerceremos nosso preconceito.

Agora imaginem o qu√£o insegura ou que necessidade especial uma pessoa pode ter para chegar ao ponto de estabelecer um relacionamento afetivo com bonecos hiper-realistas.

Pois √©, existe! Tenho certeza que mesmo com todo essa prepara√ß√£o, a maioria das pessoas que lerem este texto, n√£o conseguiriam aceitar como normal caso conhecessem uma pessoa que admitisse ter um relacionamento afetivo com um boneco ou boneca. Sabendo disso, as pessoas que escolhem esse tipo de relacionamento, nunca ir√£o se expor para a sociedade. Ningu√©m est√° nem a√≠ para tentar ver o ponto de vista do outro, as pessoas apenas iriam julgar e executar seu rep√ļdio.

Eu preciso tentar achar algum ponto de vista que sensibilize vocês, para que se coloquem pelo menos na posição de cogitar que a pessoa pode fazer o que quiser, para aí, quem sabe, talvez, irem exercitando a suspensão do preconceito até chegar ao ponto de nada seja bizarro e as pessoas possam fazer qualquer escolha.

Imagine um rapaz, uma pessoa de bem, que inicia um relacionamento com uma pessoa legal e está feliz, porém seus relacionamentos sempre acabaram após a primeira transa, esse rapaz possui um micro pênis, e infelizmente todos seus relacionamentos acabaram, alguns de maneira constrangedora, outros nem tanto, mas todos acabaram pelo mesmo motivo, o rapaz sexualmente ativo e por azar com grande libido, cansou de se constranger. Será que talvez assim você cogitaria?

N√£o tente ver o ponto de vista do rapaz, tente ser o rapaz.

Com certeza √© mais f√°cil entender o Frank Underwood ou o Walter White. S√≥ que com certeza o rapaz √© o mais normal analisando os tr√™s casos. Mas qual dos casos n√≥s temos coragem de falar em p√ļblico que entendemos? Isso porque nos consideramos seres inteligentes.

Também existem pessoas que não fazem questão de se relacionar com as pessoas fisicamente. Não levantarei se existe preconceito sobre isso ou não, pois isso está acontecendo mais rápido do que podemos processar, talvez por isso nem consigamos exercer preconceito. Nesses casos eu acredito que não faria muita diferença se o relacionamento virtual fosse com pessoas ou entre humano e maquinas conscientes, pois a interação seria exatamente a mesma.

Agora que conseguimos ver vários pontos de vista, vamos concluir o exercício.


Existem pessoas que se apaixonam por conceitos, e podemos dizer que atualmente nós aceitamos isso tranquilamente.

Uma pessoa ser enganada por uma ‚Äúintelig√™ncia artificial‚ÄĚ e se apaixonar por ela, pode acontecer, tudo bem.

Entendemos que as pessoas se relacionam diferentemente na sociedade, algumas delas n√£o conseguem sem se utilizar de ferramentas.

Podem existir situa√ß√Ķes t√£o extremas que algumas pessoas podem optar se relacionar com algo que n√£o seja capaz de julgar, nunca, mesmo que sejam bonecos hiper-realistas ou intelig√™ncias artificiais.



Eu lhes pergunto:

Num futuro, mesmo que distante, voc√™ acharia normal uma pessoa amar um rob√ī humanoide inteligente consciente?

cena do filme exmachina

cena do filme exmachina


Eu espero que sejamos inteligentes o suficiente para dizer que sim!

Isto significaria que num futuro n√£o t√£o distante quanto o dos amores entre humanos e rob√īs, n√≥s conseguiremos olhar as diferen√ßas de hoje com normalidade sabendo que existem outras op√ß√Ķes e realidades diferentes que n√£o nos compete exercer julgamento, talvez neste momento estaremos pr√≥ximos √† ser seres inteligentes.

Laverne Cox

Laverne Cox

Que não sejamos monstros capazes de criar inteligência e consciência artificial para depois oprimir quem as possuir.

P.S.: Já imaginou que algum dia nós seremos capazes de transferir nossa consciência para alguma tecnologia que nos permita ultrapassar as barreiras do corpo mortal?