08/11/2009

L I X U R I A

 L I X U R I A

Lixuria

Por: Alex Nunes

Estamos na ilha do lix√£o. As autoridades dizem que foi a √ļnica solu√ß√£o encontrada para o problema dos aterros do estado.

Era uma ilha como outra qualquer, então prevendo o que não tardaria a acontecer, os responsáveis fizeram vistas grossas até chegar ao ponto onde não dava mais pra voltar atrás e dizer para a população que o dano era irreparável.

A √ļnica coisa a ser feita era tentar aproveitar a situa√ß√£o para transformar a ilha em uma esta√ß√£o de tratamento de lixo e de quebra, acabar com a farra das empresas clandestinas de ca√ßambas de entulho, que n√£o pagavam impostos e destru√≠ram a ilha levando o lixo de todos os lugares imagin√°veis pra l√°.

Com a situação fora de controle, a proposta feita pelos governantes foi aceita sem muita dificuldade e em menos de dois anos, a ilha foi transformada na maior estação de coleta, reciclagem, tratamento e aterro de lixo do país, todas as tecnologias e recursos disponíveis da época, foram utilizados.

O esc√Ęndalo do assassinato de uma ilha logo foi substitu√≠do pela p√©rola ecologicamente correta que resolvia v√°rios problemas da sociedade, um grande n√ļmero de empregos foi gerado e 90% do lixo, produziam algo a se reutilizar, o que n√£o servia, ia para o gigantesco aterro que produzia g√°s que virava combust√≠vel para o pr√≥prio funcionamento de tudo para a ilha.

Os anos foram passando e a ilha foi perdendo seu brilho, não sua funcionalidade, afinal o lixo não é bonito e nem agradável de ver, as pessoas que aceitaram os primeiros trabalhos, eram desempregados que estavam fora do mercado há bastante tempo e viviam no limite da miséria, mas depois de um tempo se recolocaram na sociedade e à medida que conseguiam, trocavam de emprego e com as mudanças de administração, muitos catadores de lixo se mudaram da cidade para ilha clandestinamente, mas novamente, era melhor fazer vista grossa.

A favela na ilha foi crescendo de tal maneira que tomou conta de quase tudo, todo o glamour foi se perdendo aos poucos, mas como todos que lá viviam dependiam do lixo, ela melhorava seu desempenho cada vez mais, as partes que não foram tomadas pela clandestinidade foram privatizadas. Sua eficiência era tão grande que todas as pessoas que trabalhavam nela também moravam lá e por isso foi esquecida completamente pelos ecochatos e virou um lugar que as pessoas sabiam que existia, mas não ligavam, pois faziam o seu trabalho sem importunar ninguém, como as algas que geram oxigênio, fora os biólogos ninguém está muito aí para elas, a ilha era uma espécie de buraco negro.

Uma grande grife de roupas contratou o fotógrafo mais conceituado da atualidade para fazer a campanha de outono de suas peças. Conhecido por ser polêmico, ele estava disposto a fazer o seu maior trabalho, para tanto, tinha que surpreender em todos os sentidos, decidiu não usar nenhuma das badaladas modelos, daquelas que o bico, custava o que muitos não ganham durante uma vida.

Ele viajou o pa√≠s todo procurando um rosto desconhecido, e encontrou em um orfanato uma garota de 15 anos de idade ela era realmente linda. Com todos os tr√Ęmites feitos, a ag√™ncia do fot√≥grafo se comprometeu em ajudar a achar algu√©m que a adotasse, o que n√£o parecia um futuro muito distante j√° que a promessa era que ela seria uma grande estrela da moda depois do grande trabalho do fot√≥grafo. Ele perdeu muito tempo procurando a modelo perfeita, o que quase comprometeu a data da campanha e por isso teve que correr com todos os preparativos para realizar o trabalho.

A beleza da garota só não era maior que sua ingenuidade e dizer que ela era linda, parecia não chegar perto do adjetivo que ela realmente merecia, era surreal.
Chegou o grande dia, depois de oito horas de viagem de barco da cidade mais pr√≥xima e mais 4 horas de montagem de equipamentos de luz e afins, fizeram o cen√°rio perfeito como se sa√≠do da cabe√ßa do fot√≥grafo direto para o lix√£o. A equipe por v√°rias vezes perdia a concentra√ß√£o quando encaravam e garota, que fazia tudo que o homem atr√°s das lentes mandava, tudo estava dando t√£o certo, o trabalho parecia uma engrenagem lubrificada automaticamente pela certeza do sucesso, todos estavam inebriados, cada clique da c√Ęmera produzia instantaneamente sorrisos coletivos.

A cada pausa, todos se reuniam em volta do notebook para ver a sequência das fotos e cada uma que passava produzia todo o tipo de euforia, todos estavam tão felizes que acabaram esquecendo da modelo, que sem saber o que fazer, ficou quieta no set esperando a ordem de alguém, até que o fotografo gritou pra que a equipe preparasse a modelo com o próximo figurino.

O processo se repetiu por diversas vezes. O prazer naquele trabalho era m√°gico, percebendo que era a ultima sess√£o, a equipe foi recolhendo tudo para o barco, at√© que foi dado o √ļltimo clique e num piscar de olhos estavam todos no barco em volta do notebook assistindo √† gl√≥ria de um trabalho que n√£o tinha outro sin√īnimo que n√£o perfeito.

E assim foram as oito horas de volta para a cidade, regadas a champanhe e muita festa, ninguém percebeu que a garota ficou na ilha.

A falta das luzes n√£o diminuiu em nada a beleza da assustada garota que achava que tudo aquilo era uma brincadeira e que logo voltariam para busc√°-la. O tempo foi passando e ela adormeceu, ali mesmo numa das partes mais feias do lix√£o. N√£o que o lix√£o tivesse alguma parte bonita, agora a triste cena vista a olho nu, sem filtros, nem luzes, n√£o tinha nada de bonito.

A garota deitada sobre o lixo dava tanta pena que arrancaria lágrimas do mais cruel carrasco, a tradução da beleza em forma de garota não era suficiente para combater a tristeza da cena, e foi essa visão que uma velha catadora teve depois de acordar cedinho e ir para o local que costumava garimpar o sustento.

Poucos iam para aqueles lados porque era o lugar com o pior cheiro de todo o lix√£o.

A velha achou que a menina estava morta e começou a chorar, o que fez com que a garota acordasse, foi então que a velha ficou em prantos de vez, ela foi imediatamente acudir a senhora, que só soluçava.

De tanto que a garota tentou a velha foi aos poucos foi parando de chorar, pegou na mão da modelo, e levou-a até a sua casa, durante o caminho ainda soluçava ao ver a beleza do seu lado, mesmo suja e maltrapilha, ainda era linda, mas a realidade não a deixava ser bela.

Dois dias se passaram nenhuma das duas havia dito uma palavra, ninguém voltou para buscar a garota, os grandes barcos do lixo só chegariam em trinta dias, e a velha decidiu ir catar lixo, a garota foi com ela sem nenhuma frescura e, pensando como seria sua vida agora, a velha também pensou:

-Agora eles jogam pessoas fora.